É possível que você já tenha se deparado com alguma notícia, seja na TV, jornal, internet ou outro meio de comunicação, informando que os recifes de coral ao redor do mundo estão morrendo. Não é pra menos, pois problema ambiental é o que não falta: o repertório inclui desde a poluição e acidificação dos oceanos, passando pelas mudanças climáticas e desequilíbrios ecológicos, até dragagens do leito marinho e pesca com explosivos.

Estas atividades humanas são muito impactantes nos oceanos, o que requer, em contrapartida, um enorme esforço de conscientização da população e dos gestores de políticas públicas, bem como de conservação por parte de instituições de manejo e pesquisa do ambiente marinho. Neste contexto, pode ter causado estranheza a veiculação de reportagens mostrando o empenho de ambientalistas e cientistas em retirar corais de alguns locais do litoral brasileiro.

A 1110 km da costa brasileira, em meio ao oceano Atlântico, ergue-se do fundo do mar o Arquipélago de São Pedro e São Paulo, o menor arquipélago do Atlântico e o ambiente recifal mais isolado e menos rico do mundo. Apesar do isolamento, o peixe recifal cangulo-preto, Melichthys niger, consegue chegar a essas ilhas e aí estabelecer grandes populações, com mais de 1000 indivíduos.

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 Cangulo-preto. Foto Juan Pablo Quimbayo (pós-doutorando do CEBIMar e bolsista FAPESP) 

A introdução de espécies exóticas é considerada uma das principais ameaças à biodiversidade, com potencial de causar uma série de impactos negativos em populações nativas. Duas espécies de corais do gênero Tubastraea (T. coccinea e T. tagusensis), popularmente conhecidos como coral-sol, foram introduzidas na costa brasileira por volta da década de 1980 e, atualmente, se distribuem ao longo de mais de 3800 km, competindo com espécies nativas e endêmicas.

 Invasão do coral-sol em um costão rochoso da Ilha dos Búzios, litoral norte do Estado de São Paulo.

Invasão do coral-sol em um costão rochoso da Ilha dos Búzios, litoral norte do Estado de São Paulo. 

Nos dias 13 e 14 de março de 2019, as águas em torno do Centro de Biologia Marinha da Universidade de São Paulo (CEBIMar/USP) se tornaram avermelhadas.

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No dia 14/03, a mancha avermelhada foi registrada em imagens aéreas obtidas com um drone.
Foto: Alvaro Migotto.

Análises de amostras de água de superfície, que haviam sido coletadas nesse período para atividades de ensino e pesquisa, revelaram a presença de grandes concentrações de organismos unicelulares planctônicos, potencialmente tóxicos.

Devido a mudanças climáticas globais, os principais arquitetos dos recifes de corais vêm sofrendo com branqueamento, doenças e sobrepesca. Assim, diversos esforços vêm sendo dedicados para melhor entendermos estes ecossistemas megadiversos. Uma das principais lacunas no conhecimento dos recifes coralíneos, mais especificadamente sobre a evolução dos mesmos, é a relação de simbiose entre os corais (hospedeiros) e algas unicelulares (dinoflagelados), que atualmente é tema de grande debate devido aos extensos registros de branqueamento nos principais recifes do mundo.