Cifonauta
NP-BioMar

 

Compartilhar
Buscar no site:

Elefante marinho

Escrito por Valéria Flora Hadel  -  Publicado em Terça, 01 Abril 2008
  • Classificação Zoológica

Mirounga leonina - jovem macho ainda sem o focinho alongado do adulto (Praia do Portinho, Ilhabela, SP - 26/jun/02 - foto: L.F. Netto - CEBIMar-USP)Filo: Chordata
Classe: Mammalia
Ordem: Carnivora
Família: Phocidae
Gênero e espécie: Mirounga leonina Linnaeus (1758)

Existem duas espécies de elefantes marinhos, uma no hemisfério norte e outra no hemisfério sul. Ambas pertencem à família Phocidae e distinguem-se dos integrantes da família Otariidae (focas, leões e lobos marinhos, p. ex.) por não possuírem orelhas e por locomoverem-se em terra apoiando-se na superfície ventral e não nas nadadeiras.

Elefante Marinho

  • Significado do nome
     

A espécie do hemisfério norte chama-se Mirounga angustirostris e a do sul, Mirounga leonina. O nome do gênero, Mirounga, é derivado de uma palavra utilizada pelos aborígines australianos para designar o elefante marinho do hemisfério sul (meridional).

A espécie do hemisfério norte (setentrional) tem seu nome derivado de duas palavras latinas: angustus, que significa estreito, e rostrum, que significa focinho, e refere-se ao fato de possuírem um focinho mais estreito do que a espécie meridional.

Mirounga leonina - Distribuição geográfica ao redor do continente antártico (Boitani & Bartoli, 1989)A origem do nome da espécie meridional, leonina, pode estar relacionada ao fato de a vocalização de ameaça dos machos ser parecida com o rugido de um leão. Outros autores, no entanto, a atribuem ao fato destes animais terem sido confundidos com leões marinhos, que recebem este nome por apresentarem pelagem espessa na região dorsal próxima ao pescoço, lembrando a juba de um leão. No entanto, não se sabe qual das duas origens é a certa.

Em inglês são chamados de "sea elephants" e, em espanhol, de "elefantes marinos".

 

  • Distribuição

Atualmente, esta espécie distribui-se em torno de todo o Continente Antártico, ocorre na maioria das ilhas e arquipélagos subantárticos, sendo que na Península Valdés, no sul da Argentina, existe uma colônia com animais ativamente reprodutivos. Colônias deste tipo são registradas entre 40°S e 62°S, mas animais isolados foram avistados no Equador e no continente Antártico, a 78°S.

Há 2.000 anos estes animais ocorriam na Tasmânia, onde eram caçados pelos aborígines australianos. No início do século XIX, porém, os caçadores europeus extinguiram os elefantes marinhos no sul da Austrália. Na década de 1980, estes animais foram vistos novamente no sul da Austrália e na Nova Zelândia, onde alguns filhotes nasceram.

Em 10 de janeiro de 1989, o primeiro exemplar de Mirounga leonina registrado para o hemisfério norte, uma fêmea de 5 anos de idade, foi morta a tiros por um pescador na costa de Oman (18°07'N - 56°32'E).

Na costa do Brasil a ocorrência destes animais é rara apesar de terem sido avistados no Rio Grande do Sul e em São Paulo.

Atualmente, colônias de reprodução foram registradas nas seguintes Ilhas: South Georgia e Malvinas (ou Falkland), South Shetland, South Orkney, South Sandwich, Kerguelen, Gough, Marion, Crozer, Heard, Macquarie, Vampbell, Windmill e Antipodes. Na face oeste do continente Antártico têm sido avistados o ano todo perto da Estação Palmer, nas Ilhas Anvers. Nos últimos anos têm havido registros destes animais na costa central do Chile, na Austrália, Tasmânia e na Ilha do Sul da Nova Zelândia.

Existem alguns registros, também, para as Ilhas Mauritius e para a costa da África do Sul e Angola.

  • Características gerais

Os machos da espécie meridional são os maiores animais do grupo das focas. Eles podem chegar a 5 m de comprimento e pesar cerca de 5.000 kg. Os machos vivem cerca de 20 anos e as fêmeas 23. O focinho dos machos alonga-se quando entram na puberdade e é utilizado como elemento de dominância hierárquica e sexual na época do acasalamento. Este focinho alongado, ou probóscide, é formado por sacos musculosos que podem ser inflados pela pressão do sangue ou do ar. Na espécie meridional ele é mais curto do que na setentrional. Os machos subadultos, porém, não possuem esse focinho alongado, podendo ser identificados pela presença de uma fenda genital um pouco abaixo da cicatriz do cordão umbilical.

 

 

Mirounga leonina - um macho adulto com o focinho alongado, uma fêmea e um filhote recém-nascido (Reeves et al, 1992)

 

 

 

Macho adulto de Mirounga leonina (Boitani & Bartoli, 1989)As fêmeas são menores, chegando a 3 m de comprimento e pesando cerca de 800 kg. No entanto, o peso médio de uma fêmea pode cair a 538 kg apenas, após o parto. Ao nascer os filhotes, tanto machos como fêmeas, medem por volta de 130 cm e pesam entre 40 e 50 kg. Eles podem ganhar até 1,6 kg de peso por dia, alimentando-se de um leite cuja composição é de 50%, aproximadamente, de gordura. Assim, quando desmamam, eles podem pesar entre 96 e 125 kg, dependendo do tamanho das mães, que chegam a perder até 8,6 kg por dia nos 19 a 27 dias de amamentação.

Os filhotes nascem c om uma pelagem negra que é logo substituída por outra de pelos cinzentos e longos na época do desmame. Quando o elefante marinho completa um ano de vida a pelagem tem uma cor amarelada que escurece no adulto até um tom marrom mais escuro. Mas, a cada troca anual, a nova pelagem volta a crescer no mesmo tom cinzento, escurecendo novamente ao longo do ano.

A idade destes animais pode ser avaliada a partir do exame das camadas de dentina dos dentes.

Os elefantes marinhos passam a maior parte do tempo no mar seguindo rotas migratórias ainda não bem delimitadas para esta espécie.

  • Comportamento reprodutivo

O ciclo anual dos elefantes marinhos é dividido em duas fases terrestres, quando ocorre o acasalamento e a muda, e duas pelágicas, quando os animais se alimentam. A primeira ocorre após o acasalamento e dura de 2 a 3 meses, enquanto que a segunda ocorre após a muda e dura 7 meses.

Os machos chegam às colônias de reprodução na pr imavera austral, entre agosto e setembro e as fêmeas grávidas entre setembro e outubro. Os machos estabelecem uma hierarquia de dominância sobre um grupo de 40 a 50 fêmeas, formando um harém, e competem pelo acesso àquelas que estejam em estro, ou seja, na época ideal para a reprodução. No entanto, haréns de até 300 fêmeas com um ou dois machos já foram observados.

Os machos desafiam-se uns aos outros visualmente, vocalizando com um rugido bem diferente do som mais cadenciado produzido pela espécie do hemisfério norte. A hierarquia é baseada em primeiro lugar pela idade do macho e secundariamente pelo tamanho e pela experiência prévia do animal. Apenas 2 ou 3% dos machos adultos são capazes de se reproduzir a cada estação, podendo fecundar até 100 fêmeas. Esta alta competição, aliada a uma alta taxa de mortalidade, faz com que alguns machos nunca consigam se reproduzir e apenas alguns o fazem por duas ou mais estações.

Dependendo da colônia os machos atingem a maturidade sexual entre os 3 e os 6 anos de vida, mas reproduzem-se apenas quando chegam aos 10 anos de idade. Apenas 17% dos machos sobrevivem aos primeiros 8 anos de vida, cerca de 6% chegam aos 11 anos e apenas 1,2% vivem até os 13 anos.

Também dependendo da colônia, as fêmeas atingem a maturidade sexual entre 2 e 4 anos de vida. A partir dessa idade, uma fêmea pode ter um filhote a cada ano por 12 anos. O período de gestação é de 11 meses e cada fêmea dá à luz um único filhote depois de 6 a 8 dias da sua chegada à colônia. permanecendo em terra firme por mais 23 ou 27 dias até o filhote desmamar. A taxa de mortalidade dos jovens neste período pode chegar a 10% e resultar, entre outras causas, de inanição depois do abandono pela mãe, doenças, esmagamento durante disputas entre machos rivais e ataque de outras fêmeas que ainda estejam amamentando.

As fêmeas entram em estro aproximadamente 19 dias depois do parto. Elas acasalam poucos dias depois disso e partem subitamente, deixando para trás os filhotes desmamados, que permanecem na praia por mais uns 50 dias sem se alimentar. Neste período perdem cerca de 0,95 kg por dia. Quando perdem 70% do peso, os filhotes vão pata o mar onde se alimentam por cerca de 105 dias. Voltam, então, para terra firme por 10 a 20 dias para a troca de pelo do outono. Os adultos também jejuam na estação reprodutiva, as fêmeas por um mês e os machos por até 3 meses. Depois de abandonar os filhotes na colônia, as fêmeas vão para o mar onde se alimentam por 70 dias, recuperando 1,1 kg de peso por dia. Depois voltam para terra firme para a troca de pelo.

Mirounga leonina - jovem macho com 3,30 m de comprimento (Praia do Portinho, Ilhabela, SP - 26/jun/02 - foto de L. F. Netto - CEBIMar-USP) Mirounga leonina descansando na Praia do Portinho, Ilhabela (SP) em 26 de junho de 2002 (foto de Luiz Fernando Netto - CEBIMar-USP)

  • Comportamento alimentar

As fêmeas adultas podem mergulhar até a 1.255 m de profundidade em busca de alimento. Durante o dia, elas mergulham, em média, a 500 ou 800 m de profundidade e à noite, a 300 ou 400 m. Os machos mergulham a 400 ou 500 m de profundidade. A duração dos mergulhos varia de 20 a 27 minutos, mas uma fêmea foi monitorada num mergulho que durou 120 minutos, ou seja, duas horas. O tempo de permanência na superfície entre os mergulhos é de apenas 2 a 3 minutos.

Os olhos dos elefantes marinhos são grandes e a retina possui pigmentos especiais que permitem enxergar a fraca luz emitida por lulas, polvos e por alguns dos peixes bioluminescentes dos quais se alimentam.

  • Inimigos naturais

As focas leopardo podem predar os filhotes e as orcas podem matar filhotes e animais mais velhos. No entanto, nenhum destes predadores parecem afetar de maneira significativa a população de Mirounga leonina.

Existe pelo menos um relato de um elefante marinho morto acidentalmente por afogamento depois de preso numa rede de pesca na Tasmânia, sul da Austrália.


Caso você encontre um elefante marinho na praia não se aproxime. Ele pode se assustar e morder.

Lembre-se: os seres humanos parecem muito altos e assustadores para um animal que está deitado na areia.

Deixe-o descansar e dormir tranqüilo e impeça que outras pessoas o incomodem. Se precisar de ajuda, chame a Polícia Ambiental e a Defesa Civil do seu município.

Como um favor especial, avise o CEBIMar: nós temos o compromisso de enviar mensagens a pesquisadores que estudam mamíferos marinhos no Brasil, Argentina e Estados Unidos sobre a presença destes animais nas nossas praias.

e-mail: O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo. - Tel: (12) 3862-7149


Bibliografia consultada

BALDI, R.; C. CAMPAGNA; S. PEDRAZA & B. J. LE BOEUF 1996. Social effects of space availability on the breeding behaviour of elephant seals in Patagonia. Animal Behaviour, London, 51(4):717-724.

BOITANI, L. & S. BARTOLI 1989. Simon & Schuster's guide to mammals. New York, Simon & Schuster, Inc. 511 p.

CAMPAGNA, C.; A. L. RIVAS & M. R. MARIN 2000. Temperature and depth profiles recorded during dives of elephant seals reflect distinct ocean environments. Journal of Marine Systems, Amasterdam, 24(3-4):299-312.

MODIG, A. O. 1996. Effects of body size and harem size on male reproductive behaviour in the southern elephant seal. Animal Behaviour, London, 51(6):1295-1306.

P ALAZ ZO JR, J. T. & M. C. BOTH 1988. Guia dos mamíferos marinhos do Brasil. Porto Alegre, Sagra Livraria, Editora e Distribuidora Ltda. 158 p.

REEVES, R. R.; B. S. STEWART & S. LEATHERWOOD 1992. The Sierra Club handbook of seals and sirenians. San Francisco, Sierra Club Books. 359 p.

SANTOS, R. A. & M. HAIMOVICI 2001. Cephalopods in the diet of marine mammals stranded or incidentally caught along southeastern and southern Brazil (21-34°S). Fisheries Research, New York, 52(1-2):99-112.

WIENECKE, B. & G. ROBERTSON 2002. Seabird and seal - fisheries interactions in the Australian Patagonian toothfish Dissostichus eleginoides trawl fishery. Fisheries Research, New York, 54(2):253-265.


Diagramação de conteúdo: Antonio Augusto Della Rosa

Editoria: Divulgação
©2013 Centro de Biologia Marinha da Universidade de São Paulo
http://www.usp.br/cbm